Era uma vez um menino chamado Luiz.
Luiz vivia em Vitória, capital do Espírito Santo. Luiz não jogava futebol. Luiz não andava de skate. Luiz não pegava onda. Luiz não pegava nada. Nem ninguém.
A vida de Luiz era bem chata. Até que um dia, Luiz conheceu a internet. E com ela, os blogs.
Através dessa “grande rede” informal, Luiz aprendeu a ler, se informar, se divertir e até a ter de esperança. Pensou: “Oba! Quero ser um desses caras!”
No entanto, Luiz tinha um problema. Ele ainda era o Luiz. Um advogadinho inexpressivo. Um pobre menino desajeitado de Vitória. O “otário que quer ser um Marcos Mion” segundo os amigos. Ou melhor, conhecidos.
Foi então que Luiz resolveu virar a poderosa “Rogéria”!
Mas como já existia uma “Rogéria”, Luiz virou o “Ivo” mesmo (uma homenagem a Alfred E. Newman, mascote da “MAD”, única revista que tinha e com a qual aprendeu a se masturbar). E Luiz… já Ivo, decidiu: “Agora eu sou mau! Agora eu sou sagaz! Agora eu fumo charuto no play! Agora eu uso óculos escuros de noite!”
O Ivo então fez um blog. Mas não era um blog qualquer. Era um blog mau! Um blog sagaz! Um blog que fuma charuto no play! Um blog que usa óculos escuros de noite!
Ivo queria briga. Ivo queria treta. Alguém tinha que pagar pelo que ele (ou o Luiz) sofreu até ali.
Ivo passou a escrever sobre tudo e todos. Ele escrevia sobre as festas que nunca tinha ido. Ele escrevia sobre as drogas que nunca tinha experimentado. Ele escrevia sobre tudo que não tinha feito apesar de jurar o contrário.
Até que um dia, Ivo publicou a foto de uma menininha fazendo sexo em uma micareta.
Um erro fatal.
Publicar a foto de uma menina em cenas explícitas ofendeu a moça. Ofendeu os parentes da moça. Ofendeu os advogadões dos parentes da moça. E então Ivo lembrou que, na vida real, ainda era Luiz, o advogadinho.
Como um advogadinho não é páreo para advogadões, Ivo virou Luiz fechou o blog.
E sumiu.
Não por muito tempo, é claro.
Luiz já estava viciado em Ivo. Mas precisava de ajuda.
Depois de longo e tenebroso inverno, Ivo mandou e-mails para todos os blogueiros que ele queria ser e para todos os blogueiros que queriam ser ele. Nele, Ivo pedia links para voltar a ser o que era antes da treta com teta da menina.
Alguns o ajudaram. Outros não. Alguns deram bola. Outros não. Alguns conheciam o Ivo. Outros não. É a vida.
Mas a vida não era o suficiente para Ivo. Ele era mau, sagaz, fumava charuto no play e usava óculos escuros de noite! Por isso, ficou muito irritado ao saber que nem todos conheciam ou gostavam dele. E ficou ainda mais frustrado ao saber que esses eram justamente aqueles que ele mais admirava.
Ivo então teve uma idéia! “Vou difamar esses caras!”, decidiu. Chamou-os de ingratos. Chamou-os de aproveitadores. Chamou-os de plagiadores. Chamou-os de coisas piores.
Tá. A idéia não era lá muito original (Ivo nunca foi muito original), mas foi com ela que Ivo conheceu a “fama”. Errrrr… eu coloquei “fama” entre aspas porque o Ivo ficou bastante popular entre os seus 30 conhecidos do Babacamp (o encontro para jovens “Luizes” do Brasil inteiro). Ivo também fez sucesso com os 16 leitores que comentavam em seu blog e seus 4 mil leitores que todos juravam ser 400 mil.
Aliás, a crença era tanta que o site de Ivo chegou a ficar na 37ª colocação no ranking de blogs avaliados pelos critérios e estatísticas da tia-avó do gerente do restaurante que tinha um banner no blog dele.
O mundo estava aos pés de Ivo.
O problema é que havia outro mundo. Maior. Acima de Ivo, de Luiz e de todos os freqüentadores do Babacamp. O temido mundo dos advogadões.
Nesse mundo maior, difamar não é legal. Vociferar injustiças causa problemas. Atingir a “fama” (mesmo que entre aspas) desse jeito é tão antiético quanto copiar algo. Ou quanto deixar de creditar alguém por uma piada velha (como se isso fosse possível).
O Ivo não sabia, mas Luiz, o advogadinho, sabe que acusações devem ser calcadas em certezas e não em especulações. Na faculdade, Luiz aprendeu que o ônus da prova cabe ao acusador. Ou seja, acusar amparado pelo mera opinião é crime. E de crime, o Luiz entende.
Pobre Luiz. Poderia explicar ao Ivo a diferença entre uma obra autoral e uma noticia, piada ou CPF.
Mas não adiantaria. Ivo não quer saber de nada. Ele não quer opiniões. Ele não aceita críticas. Ele bane IPs. Ele apaga comantários. Ele é mau. Ele é sagaz. Ele fuma charuto no play. Ele usa óculos escuros à noite. Ele continua andando de ônibus.
E suas vítimas vão dando tchauzinho da janela do avião.
É hora do Luiz voltar. Antes que o Ivo cometa outro erro fatal.